Avivamento da Rua Azusa: História, Origem e Impacto no Pentecostalismo

Avivamento da Rua Azusa: História, Origem e Impacto no Pentecostalismo

Em um galpão caindo aos pedaços na Rua Azusa, número 312, no centro de Los Angeles, a poeira de uma antiga estrebaria ainda impregnava o ar quando o louvor começou na noite de 14 de abril de 1906. O prédio de madeira, antes utilizado pela Igreja Episcopal Metodista Africana e recentemente convertido em depósito de materiais de construção, abrigava caixas de madeira como púlpito e pranchas apoiadas sobre barris de querosene como bancos.

No centro daquele espaço improvável, um homem negro de um olho só, filho de ex-escravos, permanecia com a cabeça inclinada dentro de uma caixa de madeira de embalar sapatos, orando em silêncio. Era William Joseph Seymour. À sua volta, sem qualquer barreira de cor, classe ou gênero — em uma América profundamente marcada pela segregação racial das leis Jim Crow —, negros, brancos, latinos e imigrantes asiáticos ajoelhavam-se juntos na serragem. Segundos depois, o som de orações fervorosas e línguas desconhecidas rompeu o silêncio da noite californiana. O que começou ali não apenas escandalizou a imprensa local, mas desencadearia o maior movimento missionário e espiritual do século XX.

Como um pequeno grupo marginalizado no sul de Los Angeles deu origem a uma onda que alcançou centenas de milhões de pessoas em todo o planeta?

O que foi o Avivamento da Rua Azusa?

O Avivamento da Rua Azusa foi um histórico movimento de renovação espiritual ocorrido em Los Angeles, Califórnia, entre os anos de 1906 e 1909 (com reuniões remanescentes até 1915). Liderado pelo pastor afro-americano William Joseph Seymour, o avivamento tornou-se o catalisador primário do pentecostalismo moderno global, caracterizado pela busca pelo batismo no Espírito Santo com a evidência de falar em novas línguas (glossolalia), curas divinas e uma profunda integração racial em seus cultos.

O movimento começou formalmente após dias de oração na Rua Bonnie Brae, mudando-se rapidamente para o prédio da Rua Azusa devido ao crescimento drástico do número de participantes. A Missão da Fé Apostólica (Apostolic Faith Mission), como ficou conhecida a congregação, mantinha reuniões diárias, quase ininterruptas, recebendo milhares de visitantes de todas as partes dos Estados Unidos e do exterior.

A importância histórica da Azusa reside na sua capacidade de unir uma experiência pneumatológica (o batismo no Espírito Santo) com uma ética de reconciliação racial e envio missionário global. De Azusa, o pentecostalismo espalhou-se rapidamente para a Europa, Ásia, África e América Latina, dando origem às maiores denominações pentecostais do mundo contemporâneo.

FICHA HISTÓRICA

  • Nome: Avivamento da Rua Azusa (Missão da Fé Apostólica)

  • Local: Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos (Rua Azusa, nº 312)

  • Período: 1906–1909 (período de pico); reuniões contínuas até aproximadamente 1915

  • Personagens Principais: William J. Seymour, Charles F. Parham, Jennie Evans Moore, Frank Bartleman, Lucy Farrow, Edward S. Lee

  • Movimento/Tradição: Pentecostalismo Moderno / Movimento de Santidade (Holiness Movement)

  • Locais Importantes: Rua Bonnie Brae, nº 214; Rua Azusa, nº 312; Colégio Bíblico de Topeka (Kansas)

  • Publicações Relacionadas: Jornal The Apostolic Faith (1906–1908)

  • Impacto Principal: Nascimento e expansão global do pentecostalismo moderno; rompimento temporário de barreiras raciais e de gênero no ministério religioso; envio massivo de missionários transculturais.

O que estava acontecendo antes da Rua Azusa?

Para compreender a explosão ocorrida em Los Angeles em 1906, é preciso olhar para as correntes espirituais e sociais que varriam os Estados Unidos na virada do século XIX para o século XX. O país vivia transformações urbanas aceleradas, imigração em massa e o rigor das leis de segregação racial.

No campo religioso, o ambiente protestante norte-americano estava profundamente impactado pelo Movimento de Santidade (Holiness Movement), nascido da tradição metodista. Esse movimento enfatizava a busca pela “segunda obra da graça” — a inteira santificação —, ensinando que o crente deveria buscar uma experiência pós-conversão de purificação do coração e capacitação espiritual.

Simultaneamente, o avivamento do País de Gales (1904–1905), liderado por Evan Roberts, gerava uma onda mundial de expectativa por um derramamento do Espírito Santo. Notícias sobre milhares de conversões na Europa circularam em jornais e periódicos religiosos americanos, alimentando a fome espiritual de pequenos grupos de oração por todos os Estados Unidos.

No Kansas, em janeiro de 1901, o evangelista Charles Fox Parham e seus alunos no Bethel Bible College, na cidade de Topeka, haviam chegado à conclusão teológica de que o falar em línguas era a “evidência física inicial” do batismo no Espírito Santo. Quando a aluna Agnes Ozman falou em línguas após a imposição de mãos, o arcabouço teológico do pentecostalismo moderno foi formulado. Parham começou a pregar essa doutrina por onde passava, fundando a escola bíblica em Houston, Texas, onde o caminho de William J. Seymour se cruzaria com essa nova teologia.

O Líder:

Quem foi William J. Seymour?

William Joseph Seymour nasceu em 2 de maio de 1870, em Centerville, Louisiana. Filho de ex-escravos libertos após a Guerra Civil Americana, Seymour cresceu em um ambiente de extrema pobreza e sob a opressão da segregação racial. Cego de um olho devido à varíola, ele era um homem de fala mansa, postura humilde e profunda devoção à oração.

Em meados da década de 1890, Seymour viajou para o norte dos Estados Unidos, trabalhando como garçom e hoteleiro em cidades como Indianápolis e Cincinnati. Nesses locais, ele entrou em contato com o Movimento de Santidade (Evening Light Saints), onde absorveu os ensinamentos sobre

William_J._Seymour Lider Senior do Avivamento da Rua Azusa

 cura divina, santificação e a unidade da Igreja acima das divisões raciais.

Em 1905, Seymour mudou-se para Houston, Texas, onde passou a frequentar a escola bíblica temporária estabelecida por Charles Parham. Devido às leis de segregação do estado do Texas, Seymour não tinha permissão para se sentar dentro da sala de aula com os alunos brancos; ele ouvia as palestras do corredor, através de uma porta aberta. Apesar do preconceito, Seymour adotou a teologia de Parham sobre o batismo no Espírito Santo e a evidência inicial de línguas, embora ele próprio ainda não tivesse vivenciado essa experiência.

Em meados de janeiro de 1906, Seymour recebeu um convite para pastorear uma pequena igreja de santidade afro-americana em Los Angeles, liderada por Julia Hutchins. Ele aceitou a chamada, sem saber que sua chegada à Califórnia mudaria a história do cristianismo.

Como começou o Avivamento da Rua Azusa?

Ao chegar a Los Angeles em fevereiro de 1906, Seymour pregou seu primeiro sermão na igreja de Julia Hutchins na Rua Santa Fe. Baseando-se no texto de Atos 2:4, ele declarou que qualquer pessoa que não tivesse falado em línguas ainda não havia recebido o batismo no Espírito Santo. A mensagem causou forte rejeição: ao retornar para o culto seguinte, Seymour encontrou as portas da igreja trancadas com cadeado.

Imagem real da casa da Rua Bonnie Brae onde tudo começou

Sem lugar para morar ou pregar, Seymour foi acolhido na casa de Edward e Mattie Lee. Pouco tempo depois, o pequeno grupo de oradores mudou-se para a residência de Richard e Ruth Asberry, localizada no número 214 da Rua Bonnie Brae. Naquela casa de madeira, o grupo começou a jejuar e orar fervorosamente buscando o derramamento do Espírito Santo.

Em 9 de abril de 1906, após dias de intercessão, Edward Lee experimentou o falar em línguas após Seymour orar por ele. Quando a notícia chegou à reunião na casa da Rua Bonnie Brae naquela mesma noite, o poder do Espírito Santo impactou os presentes. Várias pessoas, incluindo Jennie Evans Moore (que mais tarde se casaria com Seymour), caíram ao chão e começaram a falar em novas línguas e a louvar a Deus.

A notícia espalhou-se rapidamente pela cidade. Multidões de negros e brancos cercaram a casa da Rua Bonnie Brae, a tal ponto que a varanda da frente desabou sob o peso das pessoas. Ficou evidente que o local não comportava mais os famintos espirituais. Seymour e seus colaboradores saíram em busca de um novo prédio.

Eles encontraram um antigo galpão de madeira na Rua Azusa, número 312. O prédio havia sido construído como templo da Igreja Episcopal Metodista Africana, mas vinha sendo usado como depósito de motopeças, estabulo e abrigo de entulhos. Limparam o local e, em 14 de abril de 1906, realizaram o primeiro culto na Missão da Fé Apostólica da Rua Azusa. Quatro dias depois, em 18 de abril, o grande terremoto de San Francisco abalou a Califórnia, gerando um profundo senso de urgência espiritual e atraindo ainda mais pessoas para a missão.

Linha do Tempo do Avivamento

  • Janeiro de 1901: Agnes Ozman fala em línguas na Escola Bíblica Bethel, em Topeka (Kansas), sob a liderança de Charles Parham.

  • Fim de 1905: William J. Seymour ouve as aulas de Charles Parham no corredor da escola em Houston (Texas).

  • 22 de Fevereiro de 1906: Seymour chega a Los Angeles e prega seu primeiro sermão.

  • Março de 1906: Trancado do lado de fora da igreja da Rua Santa Fe, Seymour começa reuniões de oração na casa da Rua Bonnie Brae.

  • 9 de Abril de 1906: Ocorre a irrupção do falar em línguas na Rua Bonnie Brae; Jennie Evans Moore e outros são batizados no Espírito Santo.

  • 14 de Abril de 1906: Primeiro culto realizado no prédio da Rua Azusa, nº 312.

  • 18 de Abril de 1906: Grande Terremoto de San Francisco atrai atenção e gera temor de juízo divino na região.

  • Setembro de 1906: Lançamento da primeira edição do jornal The Apostolic Faith, impresso e distribuído gratuitamente.

  • Outubro de 1906: Charles Parham visita a Azusa e critica abertamente a integração racial e o estilo de culto, gerando o primeiro grande rompimento.

  • 1907–1908: O avivamento atinge seu pico global; missionários são enviados para a Índia, China, África, Europa e América do Sul.

  • 1909: A frequência diária maciça começa a diminuir, mas o prédio continua como centro local de adoração.

  • 28 de Setembro de 1922: Morte do pastor William J. Seymour.

  • 1931: O prédio da Rua Azusa é demolido pela prefeitura de Los Angeles.

Por dentro do Avivamento: Como eram os cultos?

Visitar a Rua Azusa entre 1906 e 1908 era uma experiência radicalmente diferente de qualquer culto protestante tradicional da época. Os cultos aconteciam quase ininterruptamente, três vezes ao dia (manhã, tarde e noite), sete dias por semana, estende

ndo-se frequentemente até altas horas da madrugada.

O espaço físico era extremamente simples. O chão estava coberto de serragem para absorver a sujeira e o suor. Não havia órgão, piano ou instrumentos orquestrados; a música era predominantemente a cappella ou acompanhada por palmas ritmadas. O louvor surgia de forma espontânea, com cânticos conhecidos do movimento de santidade e o que os

participantes chamavam de “o canto no Espírito” — uma harmonia improvisada em línguas espirituais que preenchia o ambiente.

A liderança de Seymour era marcada por uma incomum ausência de controle pessoal. Ele passava longos períodos do culto com a cabeça inclinada dentro da caixa de sapatos usada como púlpito, buscando a orientação do Espírito Santo antes de proferir qualquer palavra. Não havia ordem de culto impressa, liturgias rígidas ou anúncios formais. Qualquer pessoa — homem ou mulher, negro ou branco, idoso ou jovem — que se sentisse movida pelo Espírito Santo podia se levantar para dar um testemunho, ler uma passagem bíblica ou pregar.

O jornalista do Los Angeles Daily Times, que visitou a missão em abril de 1906 para ridicularizar o movimento, escreveu com espanto sobre o fervor do local, descrevendo manifestações de gritos, pessoas caindo ao chão, orações simultâneas e uma estranha mescla de raças que escandalizava a sociedade da época.

ARQUIVO O CRISTÃO INFORMADO “A linha de cor foi lavada pelo sangue de Jesus.” Essa frase, imortalizada pelo evangelista Frank Bartleman em seus diários sobre a Azusa, resume a maior marca sociológica do avivamento. Em uma era de segregação violenta, a liderança de um homem negro sobre uma congregação multiétnica foi uma demonstração visível da unidade do Corpo de Cristo.

O que aconteceu espiritualmente: Manifestações e Teologia

O que os participantes da Rua Azusa experimentaram não foi apenas um ajuntamento emocional, mas uma profunda vivência teológica e espiritual respaldada pela busca bíblica. As manifestações relatadas e documentadas nas edições do próprio jornal da missão, The Apostolic Faith, incluíam:

  • Batismo no Espírito Santo e Glossolalia: A experiência central do movimento. Os crentes buscavam a capacitação do Espírito Santo, acompanhada pelo falar em línguas desconhecidas, compreendido tanto como linguagem de oração espiritual quanto como xenoglossia (línguas humanas reais não aprendidas, voltadas para a evangelização).

  • Curas Divinas e Libertação: Relatos contínuos de doentes curados por meio da imposição de mãos e da anotação de pedidos de oração. Muleta, bengalas e óculos descartados eram pendurados nas paredes da Missão da Rua Azusa como testemunhos visíveis.

  • Profecias e Discernimento: Os cultos eram marcados pela convicção de que os dons carismáticos descritos em 1 Coríntios 12 haviam sido plenamente restaurados à Igreja para os últimos dias.

  • Arrependimento e Restituição: Antes de buscar o batismo no Espírito Santo, os buscadores eram exortados a passar pelo “altar”, onde confessavam pecados, perdoavam ofensas e buscavam a santificação moral.

Fato ou Tradição? A história das línguas para missões sem estudo

O que é contado:

Muitos relatos populares do início do movimento pentecostal afirmavam que as línguas concedidas na Rua Azusa eram exclusivamente idiomas humanos existentes (xenoglossia) e que os missionários enviados de Los Angeles poderiam desembarcar em terras estrangeiras — como China, Índia ou África — e pregar imediatamente aos nativos em seus idiomas locais sem a necessidade de aprender a língua.

O que as fontes mostram:

As fontes primárias da época mostram que, nos primeiros meses de 1906, lideranças como Parham e o próprio Seymour acreditavam que o falar em línguas serviria como um atalho divinamente concedido para as missões globais. No entanto, quando os primeiros missionários da Azusa chegaram a campos como a Índia (como Alfred e Lillian Garr) e a África (como Lucy Farrow), perceberam que as línguas espirituais que falavam não eram compreendidas pelos habitantes locais para fins de pregação sistemática. Eles tiveram que recorrer a tradutores locais e ao estudo tradicional do idioma.

O que podemos afirmar:

DOCUMENTADO POR TESTEMUNHO E FONTES PRIMÁRIAS. A ideia inicial de que as línguas eram primariamente xenoglossia missionária foi uma expectativa teológica inicial dos pioneiros. Na prática, a glossolalia manifestou-se esmagadoramente como linguagem devocional e de oração entre o crente e Deus (1 Coríntios 14:2). O movimento rapidamente corrigiu sua compreensão missionária, mantendo o fervor evangelístico e adotando o aprendizado linguístico tradicional, sem perder a fé na concessão de dons espirituais.

Documentos e Evidências Históricas

A história da Rua Azusa não depende de mitos; ela é uma das fases mais bem documentadas da história da Igreja no século XX.

Representação historica do galpao do avivamento da rua azusa em los angeles 1906″
  • O Jornal The Apostolic Faith: Publicado entre setembro de 1906 e maio de 1908, este periódico quinzenal alcançou uma tiragem de mais de 50.000 exemplares por edição, distribuídos gratuitamente pelo mundo. Suas páginas contêm relatos detalhados de sermões, testemunhos de curas, listas de missionários enviados e artigos teológicos escritos por Seymour.

  • Matérias de Jornais Seculares: O Los Angeles Daily Times e o Los Angeles Herald publicaram diversas reportagens cobrindo o movimento entre 1906 e 1907. Embora frequentemente satíricas e racistas, essas reportagens servem como evidência secular incontestável da magnitude, da frequência e da composição racial das reuniões.

  • Os Diários de Frank Bartleman: O evangelista Frank Bartleman registrou em seus diários e no livro How Pentecost Came to Los Angeles (1925) observações minuciosas sobre o ambiente, a teologia e as dinâmicas sociais da missão.

Personagens do Avivamento

  • William J. Seymour: Pastor principal e líder espiritual da Missão da Fé Apostólica. Sua humildade, liderança integradora e vida de oração sustentaram o movimento.

  • Jennie Evans Moore: Liderou o louvor nas primeiras reuniões na Rua Bonnie Brae e tornou-se a primeira mulher a falar em línguas no grupo de Los Angeles. Casou-se com Seymour em 1908 e assumiu a liderança da missão após a morte do marido.

  • Lucy Farrow: Pastora afro-americana e intercessora decisiva. Foi ela quem apresentou Seymour a Charles Parham em Houston e serviu como catalisadora da oração na Rua Bonnie Brae e, mais tarde, em missões na Libéria.

  • Frank Bartleman: Evangelista, escritor e cronista do movimento. Suas publicações e boletins informativos divulgaram as notícias do avivamento para periódicos ao redor do mundo.

  • Charles Fox Parham: Teólogo considerado o “pai do pentecostalismo doutrinário”. Apesar de suas contribuições teológicas iniciais, rompeu criticamente com Seymour ao visitar a Azusa em 1906 por razões raciais e divergências sobre as manifestações.

  • William H. Durham: Pastor de Chicago que visitou a Azusa em 1907 e mais tarde articulou a teologia da “Obra Consumada de Cristo” (Finished Work), que gerou debates importantes no jovem movimento pentecostal.

    missões saindo da Rua Azusa para os continentes entre 1906 e 1910

Como o movimento se espalhou pelo mundo

A Missão da Rua Azusa funcionou como um grande centro de envio missionário. Homens e mulheres chegavam a Los Angeles, eram

batizados no Espírito Santo e partiam para diferentes continentes, acreditando que viviam os últimos dias antes da volta de Cristo.

A expansão ocorreu em três frentes principais:
  1. Redes de Comunicação: O jornal The Apostolic Faith foi enviado para milhares de pastores, líderes de santidade e lares em todo o mundo, gerando focos de busca espiritual na Inglaterra, Suécia, Índia e África do Sul.

  2. Visitantes Transformados: Líderes proeminentes visitaram a Azusa e levaram o fogo pentecostal para suas regiões. T.B. Barratt levou a mensagem para a Escandinávia e Europa Central; Gastão Barnabé Cashwell disseminou a mensagem pelo sul dos Estados Unidos, alcançando os fundadores da Church of God e da Pentecostal Holiness Church.

  3. Envio Missionário Direto: Dezenas de voluntários partiram diretamente da Azusa para a China, Japão, Egito, Libéria e Índia.

Qual foi a influência da Rua Azusa no Brasil?

A conexão entre o Avivamento da Rua Azusa e o nascimento do pentecostalismo no Brasil é direta e historicamente comprovada.

Em 1907, o pastor sueco-americano Gunnar Vingren e o evangelista Daniel Berg experimentaram o batismo no Espírito Santo sob a influência do movimento pentecostal emergente nos Estados Unidos (Vingren frequentou convenções ligadas aos desdobramentos da Azusa e ao ministério de William Durham em Chicago). Em uma reunião de oração em South Bend, Indiana, eles receberam uma orientação profética que indicava o nome “Pará”.

Sem conhecerem a geografia da América do Sul, pesquisaram em uma biblioteca e descobriram que se tratava de um estado no norte do Brasil. Em novembro de 1910, Berg e Vingren desembarcaram em Belém do Pará. O trabalho iniciado por eles deu origem às Assembleias de Deus, hoje a maior denominação evangélica do país.

Paralelamente, em 1910, o italiano Louis Francescon, que também havia recebido a experiência pentecostal em Chicago através de redes diretamente impactadas pela Azusa, chegou ao Brasil e fundou a Congregação Cristã no Brasil em Santo Antônio da Platina (PR) e em São Paulo.

Portanto, as duas maiores raízes do pentecostalismo brasileiro derivam diretamente da onda espiritual desencadeada a partir de 1906 em Los Angeles.

Impacto e Legado

O Avivamento da Rua Azusa alterou permanentemente a demografia e a espiritualidade do cristianismo global.

  • Crescimento do Pentecostalismo Global: O movimento iniciado naquele galpão humilde gerou uma família denominacional que hoje conta com mais de 640 milhões de fiéis no mundo — aproximadamente 1 em cada 4 cristãos no planeta é pentecostal ou carismático.

  • Quebra de Barreiras Ministeriais: A Azusa demonstrou que o Espírito Santo capacita indivíduos independentemente de raça, classe social ou gênero. Mulheres e minorias étnicas desempenharam papéis de liderança decisivos, estabelecendo um precedente para o ministério leigo e inclusivo.

  • Restauração do Fervor Missionário: A convicção de que o batismo no Espírito Santo é um revestimento de poder para a evangelização (Atos 1:8) redefiniu a missiologia do século XX, deslocando o centro do cristianismo do Ocidente para o Sul Global.

Por que terminou? A decadência e os conflitos

O período de pico das reuniões diárias na Rua Azusa durou de 1906 a 1909. O declínio da missão como centro global ocorreu devido a uma combinação de fatores externos e conflitos internos:

  1. Tensões Raciais Reincidentes: À medida que o movimento cresceu e se institucionalizou fora da Azusa, a forte segregação da sociedade americana voltou a se impor. Vários líderes brancos separatistas criaram suas próprias organizações, afastando-se da liderança de Seymour.

  2. Rachas Doutrinários: Debates teológicos intensos — especialmente a controvérsia sobre a “Obra Consumada” liderada por William Durham em 1911 — dividiram a congregação e atraíram muitos membros para novas redes de igrejas.

  3. Divisão de Liderança e Cadastro: Em 1908, duas colaboradoras brancas da missão mudaram-se para Portland, Oregon, levando consigo as listas mundiais de correspondência e os direitos de publicação do jornal The Apostolic Faith. Sem a lista de contatos, a missão em Los Angeles perdeu seu principal canal de comunicação e apoio financeiro global.

Apesar do esvaziamento do prédio e de sua posterior demolição em 1931, a chama acesa na Azusa não se apagou; ela já havia se espalhado e criado raízes em todos os continentes.

O que o Avivamento da Rua Azusa ensina à Igreja de hoje?

  1. Deus usa os humildes e os desprezados: O Senhor não escolheu uma grande catedral ou um teólogo influente da elite para liderar o maior avivamento do século XX, mas um filho de ex-escravos em um estabulo adaptado. A verdadeira autoridade espiritual nasce da humildade e da dependência de Deus.

  2. A unidade do Corpo supera as divisões culturais: A imagem de negros, brancos e imigrantes orando juntos no auge da segregação racial nos EUA demonstra que o verdadeiro derramamento do Espírito desfaz muros de separação.

  3. O poder do Espírito destina-se às missões: O batismo no Espírito Santo na Azusa nunca foi encarado como um fim em si mesmo ou como mero entretenimento espiritual, mas como capacitação para a santidade e para a pregação do Evangelho aos perdidos.

  4. A oração no secreto precede a glória pública: Os frutos da Azusa foram semeados em longas horas de joelhos na Rua Bonnie Brae. Não há atalhos organizacionais para a presença de Deus; o avivamento é fruto de fome espiritual e intercessão perseverante.

Perguntas Frequentes

Quando aconteceu o Avivamento da Rua Azusa?

O período principal do avivamento ocorreu entre 1906 e 1909, embora reuniões e cultos regulares tenham continuado na missão sob a liderança da família Seymour até a década de 1920.

Onde ficava a Missão da Rua Azusa?

Ficava localizada na Rua Azusa, número 312, no centro da cidade de Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos.

Quem foi o fundador do avivamento?

O líder principal foi o pastor afro-americano William Joseph Seymour, acompanhado por um grupo diversificado de intercessores e colaboradores.

Qual foi a causa imediata do início das manifestações?

As manifestações de falar em línguas começaram em 9 de abril de 1906, durante uma reunião de oração na residência da família Asberry, na Rua Bonnie Brae, nº 214, transferindo-se dias depois para a Rua Azusa.

O prédio da Rua Azusa ainda existe?

Não. O prédio de madeira foi demolido pela prefeitura de Los Angeles em 1931. Hoje, o local abriga uma praça e um memorial na região de Little Tokyo, no centro de Los Angeles.

Fontes e Referências

FONTES PRIMÁRIAS

  • SEYMOUR, William J. (Ed.). The Apostolic Faith (Jornal oficial da Missão da Fé Apostólica, Los Angeles, 1906–1908).

  • BARTLEMAN, Frank. How Pentecost Came to Los Angeles: As It Was in the Beginning. Los Angeles, 1925.

LIVROS E PESQUISAS HISTÓRICAS

  • ROBECK JR., Cecil M. Azusa Street Mission and Revival: The Birth of the Global Pentecostal Movement. Nelson Reference, 2006.

  • SYNAN, Vinson. O Século do Espírito: Custo e Impacto do Movimento Pentecostal e Carismático. Editora Vida, 2002.

  • ALEXANDER, Estrelda. The Black Roots and Global Reach of Azusa Street. Pilgrim Press, 2012.

ARQUIVOS E INSTITUIÇÕES

  • Flower Pentecostal Heritage Center (Springfield, Missouri).

  • David du Plessis Archives, Fuller Theological Seminary (Pasadena, Califórnia).

Marcado:

2 Comentários

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *